terça-feira, 17 de março de 2026

Abundância de álcool no cometa 3I/ATLAS

O cometa 3I/ATLAS continua sendo notícia, graças às novas descobertas dos astrônomos que utilizam o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array). Esta nova pesquisa revela que o 3I/ATLAS contém uma quantidade incomumente grande da molécula orgânica metanol, mais do que quase todos os cometas conhecidos no nosso Sistema Solar.

© NRAO (ilustração do cometa 3I/ATLAS)

No lado do cometa mais próximo do Sol, o gás metanol é mostrado em azul, com grãos de poeira gelada ainda presentes no gás. No lado escuro do cometa, o cianeto de hidrogênio é mostrado em laranja. 

Usando o ACA (Atacama Compact Array) do ALMA no Chile, em várias datas no final de 2025, a equipe observou o cometa 3I/ATLAS quando se aproximava do nosso Sol. À medida que a luz solar aquecia a sua superfície gelada, o 3I/ATLAS liberava gás e poeira, formando um halo brilhante (ou cabeleira) em torno do seu núcleo. Ao analisar esta cabeleira, os astrônomos revelaram as impressões digitais químicas do material que a compõe, permitindo-lhes estudar como os objetos podem ser formados em outro sistema planetário, sem sair do nosso.

A equipe concentrou-se nas fracas impressões digitais submilimétricas de duas moléculas: metanol (CH₃OH) e cianeto de hidrogênio (HCN), uma molécula orgânica que contém nitrogênio, comum em cometas. Os dados do ALMA revelam que o 3I/ATLAS é fortemente enriquecido em metanol em comparação com o cianeto de hidrogênio, muito além do que é normalmente observado em cometas nascidos no nosso próprio Sistema Solar.

Em duas datas de observação, foram medidas proporções de metanol para HCN de cerca de 70 e 120, colocando o 3I/ATLAS entre os cometas do Sistema Solar mais ricos em metanol já estudados. Estas medições sugerem que o material gelado do 3I/ATLAS foi formado por condições muito diferentes daquelas que moldam a maioria dos cometas do nosso Sistema Solar.

Trabalhos anteriores com o telescópio espacial James Webb mostraram que o 3I/ATLAS tinha uma cabeleira dominada por dióxido de carbono quando estava longe do Sol, e estes novos resultados do ALMA acrescentam o metanol como outro detalhe incomum do seu inventário químico. A alta resolução do ALMA também permitiu à equipe ver como diferentes moléculas se afastam do cometa, revelando diferenças surpreendentes entre o metanol e o cianeto de hidrogênio. O cianeto de hidrogênio parece vir, em grande parte, diretamente do núcleo do cometa, o que é típico dos cometas do nosso Sistema Solar. O metanol, por outro lado, parece vir tanto do núcleo quanto das partículas de gelo na cabeleira.

Estes minúsculos grãos gelados atuam como minicometas: à medida que o objeto se aproxima do Sol, onde o gelo se transforma em gás, eles também liberam metanol. Um comportamento semelhante foi observado em alguns cometas do Sistema Solar, mas esta é a primeira vez que é detalhada, em tão grande pormenor, a física da desgaseificação num objeto interestelar.

O cometa 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto confirmado já visto passando pelo Sistema Solar oriundo do espaço interestelar, depois do 1I/'Oumuamua e do 2I/Borisov. As observações destes objetos também revelaram propriedades incomuns. À medida que os astrônomos continuam descobrindo e estudando mais objetos interestelares, a nossa compreensão da formação de planetas em outros sistemas torna-se cada vez mais interessante.

Um artigo foi publicado no periódico The Astrophysical Journal Letters.

Fonte: National Radio Astronomy Observatory